Pastores de jaleco branco

Pastores de jaleco branco

 

As pílulas do Frei Galvão[1], já escutou falar delas? Para quem não conhece Santo Antônio de Sant’Anna Galvão foi o primeiro santo brasileiro, canonizado em 2007 pelo papa Bento 16.

Quando seu santuário foi inaugurado, fui levada para conhecê-lo. Eu era criança, tive que ir nessa excursão da igreja. Do prédio eu nada recordo, só lembro que não podíamos ir embora sem pegar as poderosas pílulas do Frei Galvão. Eu mesma peguei a minha! E fiquei bem desapontada quando tomei e absolutamente nada aconteceu.

Enfim, você sabia que cerca de 2 milhões de pessoas por ano pedem as pílulas de São Frei Galvão, em Guaratinguetá? Sabia que eles pararam de produzir as pílulas durante a pandemia?[2] 

Por que eu estou contanto tudo isso? Porque eu me peguei pensando sobre a medicina brasileira e o que está acontecendo com ela.  Hoje estamos com grande número de médicos falando sobre “pílulas poderosas”. Eles usam o Youtube, o WhatsApp, a mídia tradicional e qualquer outro espaço cedido.

O Santo de Guaratinguetá deveria cobrar copyrights, pois esses médicos estão roubando seu trabalho! Estão no campo da religião, da fé, do curandeirismo e do pensamento mágico. Eles definitivamente não estão usando a ciência. Escolhem trechos de artigos como um pastor e/ou padre escolhem trechos da bíblia. Não mencionam a metodologia adotada pelo artigo (se é que eles entendem o que é isso), nem o seu nível de evidência.

Há situações em que a pílula mágica é a cloroquina, e há outras em que é a ivermectina. Às vezes aconselham um kit de remédios. Então, um médico ou um grupo deles podem se reunir para escrever protocolos e mandar para o seu prefeito preferido. Quando olhamos esses casos ficamos com a impressão de que qualquer pessoa sem nenhuma razoabilidade pode se formar em medicina. A ética médica e a inteligência perdem para a prática do espertalhão.

As faculdades estão errando no básico. Assistimos médicos que não seguem o que conhecemos como “a medicina baseada em evidência”. Preferem seguir o que aprenderam na infância durante a catequese: basta crer! Tome esse pedaço de papel (como é a pílula do frei Galvão), ou melhor, engula esse remédio de carrapato e você estará seguro, o COVID-19 que se cuide!

Se nós apenas atentarmos a dois itens do código de ética médica, isso já é o suficiente para saber que esses profissionais estão rasgando o próprio CRM. Primum non nocere (em primeiro lugar não cause danos) e in dubio abstino (na dúvida, abstenha-se de tratar).

A atitude deles parece de uma classe que não se acostumou aos novos tempos. Estão vivendo na Idade Média, tratando o paciente sem consideração a respeito do dano causado. O importante há décadas e décadas passadas era dar alguma coisa para o paciente. E isso não significava, de maneira alguma, que se viveria mais com o tratamento escolhido.

Quer um exemplo? Havia um procedimento usado para “curar” convulsões que consistia em furar a parte posterior do pescoço, onde passa a coluna cervical, e colocar um grão de bico dentro. Deixava-o uma semana lá até retirar uma grande quantidade de pus. Pode-se imaginar o mal que isso causava: uma infecção local que poderia levá-lo a óbito caso se disseminasse.

Se o paciente morresse não haveria problema, a culpa seria imputada à doença e não ao tratamento. Se o paciente vivessem, ai estaria a prova cabal da eficácia do tratamento. Era basicamente um horóscopo: “As pessoas que são de Áries serão surpreendidas com uma boa notícia hoje” ou “Se você é de virgem então irá respirar amanhã!”. Certamente irá funcionar com alguns, até com muitos, e o que não funciona a gente esquece.

O importante é manter a superstição e o pensamento mágico. Temos que oferecer algo ao paciente, que não pode sair do consultório sem alguma coisa em mãos. Por incrível que pareça, forçar uma pílula mágica é mais fácil do que explicar que o COVID é uma gripe. A maioria das pessoas não precisarão de um hospital, nem mesmo terão sintomas importantes. Tomando ou não tomando a cloroquina ou a ivermectina, elas irão melhorar sozinhas. A diferença é que irão gastar e correm o risco de ter um sintoma colateral fatal. De fato, na cidade de Ribeirão Preto, por exemplo, temos na UTI pacientes com Síndrome da Desconforto Respiratório Agudo (SDRA); pacientes com overdose de hidroxicloquina e pacientes com overdose de ivermectina.

As farmácias agradecem os nossos pastores de jaleco branco! Alguém está ganhando bastante. O novo bezerro de ouro: ivermectina, está com seu preço lá em cima e acabou nas prateleiras.

Frente a tudo isso, prefiro as pílulas do Frei Galvão. Pelo menos eram distribuídas gratuitamente! Aliás, o santo brasileiro tem mais consciência do que muito médico. Afinal, não permitiu que seus fiéis se encontrassem para produzir sua pílula, nem na sua igreja. Parece que ele intercedeu pela quarentena. Pena que os médicos não seguiram o santo nem a ciência!

2020 – Mariangela Cabelo

Todos pela Saúde

[1] https://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2019/10/25/catolicos-de-guaratingueta-celebram-dia-de-frei-galvao-primeiro-santo-brasileiro.ghtml

[2] https://www.ovale.com.br/_conteudo/_conteudo/nossa_regiao/2020/04/101204-producao-das-pilulas-de-frei-galvao-fica-paralisada-durante-a-pandemia.html

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